Como era ser gay e preto nos anos 2000

Menino pobre e preto, taxado de mimado por ser o único que se preocupava com a aparência. Sempre me senti um brinquedo fora da caixa. Minha pele mista denunciava certo deslocamento e minha feminilidade me empurrava para fora de qualquer caixinha binária.

A questão hoje é muito mais clara: nunca enxerguei minha própria negritude. Filho de pai branco, cabelo cacheado e traços finos, aprendi desde cedo que não era bom pra mim ”eu me misturar com os primos” para não aprender o linguajar da rua. Por eu ter esquecido minhas origens, tentava me encaixar num padrão de beleza másculo, magro, forte, bonito e adulto. Todos vindos de um discurso machista e racista impossível de ser alcançado não só por mim, mas por todos os brasileir@s.

Quando adolescente, a comunidade gay me guiou para um caminho de aceitação sexual, mas de forma tão binária quanto todo o resto da sociedade. Na época chamados de GLS, minhas referências eram as questões altamente problemáticas de shows como Queer as Folk e a novela América. Em baladas e em salas de bate papo fui alvo de racismo direto, questão que até hoje acontece.

Decidi me distanciar. Uma comunidade que não me aceitasse não poderia ser considerada minha comunidade. Peço que não me julgue nesse momento, estava enfraquecido demais para poder me estabelecer politicamente.

Esse afastamento me fez muito bem. Pude assistir à comunidade se moldar aos padrões menos binários assim como eu também me moldei. Pude ver vozes como o feminismo interseccional e mulherismo tomando novos fôlegos. E pude ver gente como eu falando de questões que me afligiam.

Agradecido, estou aqui para conversar com você, que também se sentiu assim. Respira. Você importa, e a comunidade precisa de nós. Juntos.

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